Em maio de 2008, com o sucesso do regime de metas para a inflação e a melhora dos indicadores fiscais e de vulnerabilidade externa, o Brasil recebeu o tão esperado selo de aprovação do mercado financeiro global, o grau de investimento. Com financiamento externo em abundância e os preços dos nossos produtos exportados em alta no mundo, o Real se valorizava quase ininterruptamente desde 2003. A demanda doméstica crescendo em ritmo forte provocava a reversão dos superávits em conta-corrente que obtivemos entre 2003 e 2007, mas, ainda assim, o balanço de pagamentos exibia resultados positivos por conta dos fortes fluxos observados na conta de capitais, que se refletiam no rápido acúmulo de reservas pelo Banco Central do Brasil (BC). Entretanto, este panorama seria modificado após a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers. Neste comentário, vamos analisar a evolução das contas externas brasileiras ao longo da crise.
Mesmo com todo o avanço e a reputação de solidez com que o Brasil entrou na crise, não poderíamos ficar imunes à severa restrição de liquidez global que se seguiu: o financiamento externo ao país foi bastante afetado no final de 2008. Com a virada na conta de capitais e a influência da queda dos nossos termos de troca, o Real se depreciou em mais de 40%. Naquele momento, com o BC intervindo algumas vezes no mercado de câmbio, e com a constatação da existência de instrumentos privados de dívida cambial que geraram enormes prejuízos, muitos questionaram o quão resistente de fato a economia brasileira estava aos movimentos mais abruptos na taxa de câmbio. Passados poucos meses, ficaria claro que a atuação do BC no mercado de câmbio lastreada nas reservas constituídas nos tempos de bonança e a situação credora em moeda estrangeira do setor público garantiriam a contenção dos danos causados pela interrupção da liquidez internacional. Não obstante, com a depreciação do Real e a desaceleração do mundo, o equilíbrio das contas externas brasileiras seria bastante alterado.
Em seu relatório de inflação de dezembro de 2008, o BC publicou suas projeções para o balanço de pagamentos brasileiro de 2009, com as seguintes revisões: primeiro, a depreciação cambial e a queda da demanda doméstica levariam a um crescimento menor das importações em 2009. Por sua vez, as exportações sofreriam mais por conta do colapso da demanda externa da queda dos preços das commodities, mesmo sendo favorecidas pela desvalorização do Real. Somando-se a isto remessas de lucros e dividendos 40% menores, esperava-se uma ligeira redução do déficit em conta-corrente em relação a 2008. Já pelo lado do financiamento externo, com base em um cenário de recuperação lenta da liquidez no mundo, esperava-se um fluxo bem menor de recursos na conta de capital. O BC projetava um saldo de US$30 bilhões em investimento direto, mas esperava uma saída líquida de US$3 bilhões de investimentos em portfólio. Neste ambiente de financiamento escasso, haveria também amortização líquida nos empréstimos estrangeiros.
Os oito primeiros meses de 2009 revelam uma realidade bem melhor do que se imaginava na virada do ano. Na conta-corrente, houve duas grandes surpresas: na balança comercial, apesar de tanto as exportações quanto as importações terem sofrido quedas maiores, o saldo comercial que se projeta hoje para 2009 é quase o dobro daquele esperado ao fim de 2008. Isto decorre de importações menores, em conseqüência do enfraquecimento do investimento e da produção industrial no país no primeiro semestre, e dos resultados positivos das exportações, sustentadas pela recuperação mais intensa da demanda por commodities, com destaque para a China, e também dos seus preços. Por outro lado, a conta de serviços e rendas obteve déficit maior do que se esperava. Com a retomada da atividade doméstica e a apreciação do Real, o país remeteu mais lucros ao exterior e teve despesas maiores com transportes e viagens internacionais. Ainda assim, a surpresa positiva da balança mais do que compensa o déficit maior da conta de serviços e o saldo da conta-corrente deverá ser quase US$10 bilhões maior do que se projetava em dezembro, com déficit de 1,3% do PIB.
Na conta capital, a grande surpresa se deu no investimento em portfólio. Enquanto se projetava uma saída liquida de recursos por esta rubrica no período, só de janeiro a agosto tivemos uma entrada líquida de US$ 16 bilhões, sendo a maior parte de recursos aplicados em ativos de renda variável, refletindo não apenas a maior disposição em tomar risco no mundo, mas também uma visão construtiva em relação às perspectivas das empresas brasileiras. Do lado do investimento direto, o saldo de 2009 deve ser ligeiramente menor do que as estimativas de dezembro, mas ainda assim teremos um resultado bastante positivo, especialmente se levarmos em conta a magnitude da crise, a queda do investimento no mundo e a reversão que tivemos nesta rubrica em eventos similares no passado. Por último, as taxas de rolagem estão em recuperação desde o início do ano e notícias recentes de aumento do volume de captações externas por bancos e empresas brasileiras justificam projeções melhores para o fluxo de empréstimos ao país, como se observa nas projeções mais recentes do BC.
Portanto, um ano após a quebra da Lehman Brothers, a revisão das perspectivas para as contas externas do país observada nos últimos meses reflete de maneira clara as surpresas positivas no desempenho da economia brasileira nesta crise. É preciso reconhecer que o declínio das importações decorre em grande parte de uma queda de atividade doméstica mais acentuada do que se imaginava no início do ano, especialmente do investimento. Contudo, as exportações refletem uma demanda externa mais forte pelos produtos brasileiros e a recuperação dos preços das commodities. As remessas de lucros e o déficit da conta de serviços refletem, por sua vez, a força da recuperação de atividade doméstica e a apreciação do Real. E, por último, a surpresa positiva da conta capital mostra que perduram a percepção de solidez e as perspectivas favoráveis para o futuro próximo da economia brasileira. O que esperar adiante?
Olhando para 2010 e além, é importante considerar o perfil do crescimento que estamos justificadamente festejando hoje. Por conta dos estímulos monetário e fiscal introduzidos na economia em resposta à desaceleração global, o perfil da demanda agregada mudou no Brasil. A recuperação da atividade doméstica fomentada pelo estímulo ao crédito e por expansão fiscal se refletiu na retomada forte do consumo das famílias, com redução do peso do investimento no PIB e queda na taxa de poupança nacional.
Portanto, dado o consumo em alta e o investimento em recuperação mais lenta, é muito provável que o déficit em conta-corrente volte a crescer como proporção do PIB em 2010. Ainda assim, os bons fundamentos da nossa economia, desde que preservados, devem garantir uma boa oferta de financiamento e a entrada de recursos pela conta de capitais mais do que suficientes para acomodar este déficit, como aponta a projeção do BC para o ano que vem. Entretanto, sob uma perspectiva de médio prazo, é importante que o Brasil recomponha sua taxa de poupança e direcione a poupança externa com a qual deve contar nos anos à frente para promover a retomada dos investimentos no país vis-à-vis o consumo do governo e das famílias a fim de garantir o crescimento e a solvência das suas contas externas. |