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Comentário Macroeconômico - Dez | 2009 [ voltar ]
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A Evolução da Atividade Econômica ao Longo de 2009

Na segunda semana deste mês serão divulgados os números relativos ao desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre do ano. Em entrevistas recentes, o Ministro da Fazenda afirmou que o PIB brasileiro deverá ter registrado no período expansão entre 8% e 10% em relação ao segundo trimestre do ano, em termos anualizados, levando-se em conta a série com ajuste sazonal. À luz do Sistema de Contas Nacionais, nosso objetivo neste comentário é fazer uma síntese da evolução da economia brasileira ao longo de 2009 e suas perspectivas para os próximos trimestres.

O conjunto de indicadores derivados do Sistema de Contas Nacionais nos permite fazer uma avaliação global do desempenho da economia. Um dos principais agregados do sistema, o PIB (Produto Interno Bruto), mede o total de bens e serviços produzidos nas atividades de agropecuária, indústria e serviços, mais impostos líquidos de subsídios, em determinado período de tempo. Este fluxo de produção está associado a um fluxo de renda pela remuneração dos fatores de produção (capital e trabalho), que é gasto em consumo de bens e serviços, nacionais ou importados, e em investimento para a manutenção ou ampliação da capacidade produtiva. Portanto, das Contas Nacionais derivam-se três medidas do PIB por óticas distintas, mas com resultados equivalentes. O PIB medido pela ótica da produção, correspondente ao somatório do valor agregado de cada unidade produtora; pela ótica da renda, correspondente ao rendimento dos fatores de produção; e pela ótica da demanda, relativa ao total consumido e investido em bens e serviços. Em nossa análise, vamos nos focar na avaliação do PIB pelas óticas da produção e da demanda.

Depois da expressiva queda do PIB de 3,4% no quarto trimestre de 2008, contra o trimestre imediatamente anterior, a economia brasileira manteve a trajetória de queda no primeiro trimestre, com a retração de 1%, na mesma base de comparação. Sob a ótica da produção, a maior redução foi na indústria (-3,3% vs. -8,1% no quarto trimestre de 2008), seguida pela agropecuária (-1,4% vs. -2,0%), tendo os serviços apresentado elevação (0,6% vs. -0,5%). Sob a ótica da demanda, o destaque negativo ficou por conta dos investimentos, que registraram a maior queda da série nessa base de comparação (-12,3% vs. -9,1%), em reflexo da deterioração da confiança dos empresários. Destaque positivo para o consumo das famílias que, depois da queda de 1,4% no trimestre anterior, registrou expansão de 0,6% no período. O consumo do governo cresceu 0,6%. Dentre os componentes da demanda externa, tanto as exportações quanto as importações apresentaram queda (15,8% e 16,0%, respectivamente). O fraco desempenho da economia no primeiro trimestre se refletiu nas expectativas dos analistas para o crescimento da economia em 2009 e 2010, que no momento da divulgação do PIB situavam-se em -0,6% e 3,5%. Como mencionado em nosso comentário de setembro de 2009, neste período houve uma expressiva e rápida resposta de política econômica, que contribuiu de forma importante para o processo de recuperação da atividade1.

Com isto, observamos no segundo trimestre uma expressiva recuperação da economia, com expansão de 1,9% em comparação com o trimestre anterior, a despeito de ainda mostrar queda em relação ao mesmo período do ano anterior (-1,2%). No período, a recuperação foi determinada pela expansão da indústria (2,1%) e dos serviços (1,2%), com a agropecuária registrando queda de 0,1%. Sob a ótica da demanda, os estímulos da política econômica se refletiram na aceleração do crescimento do consumo das famílias (2,1%). Um sinal favorável foi a interrupção da queda dos investimentos, que registraram variação nula no período. O consumo do Governo registrou variação negativa de 0,1%. Com relação à demanda externa, destaque para a forte expansão das exportações (14,1%), tendo as importações também apresentado crescimento (1,5%). Este período foi marcado pelo início do processo de recuperação do nível da atividade econômica, resultado que levou as expectativas para o PIB de 2009 e 2010 para -0,2% e 4%, respectivamente.

Na divulgação do PIB do terceiro trimestre de cada ano, o IBGE realiza uma revisão mais abrangente que incorpora as novas ponderações das contas nacionais anuais de dois anos antes, além de atualizações nas séries de dados e eventuais aperfeiçoamentos metodológicos. Os resultados do ano anterior e dos dois primeiros trimestres do ano corrente são recalculados incorporando as mudanças nos pesos. Este procedimento traz incertezas às projeções para o resultado do PIB no trimestre, mas a evolução dos indicadores de atividade no período mostrou que o impulso observado no segundo trimestre foi mantido. Confirmada a projeção feita pela Fazenda, o PIB terá registrado expansão em torno de 2,2% no terceiro trimestre contra o trimestre imediatamente anterior.

Em nossa avaliação, sob a ótica da produção, os destaques no terceiro trimestre continuaram a ser os setores da indústria e dos serviços. O crescimento da indústria deve ser explicado, principalmente, pelo desempenho da indústria de transformação. As pesquisas mensais realizadas pelo IBGE mostraram que o setor manteve o forte desempenho registrado no segundo trimestre, mas de forma mais disseminada entre os setores. Destaque no período para a forte recuperação da produção de bens de capital que, associado ao melhor desempenho da produção de insumos para a construção civil, deve contribuir para a retomada do crescimento dos investimentos. Por sua vez, os investimentos devem ser o destaque entre os componentes da demanda no trimestre. A consolidação da recuperação do mercado de trabalho e de crédito tende a sustentar a expansão do consumo das famílias. Quanto à demanda externa, deveremos observar a reversão da contribuição positiva do setor externo, resultante da queda das exportações e crescimento das importações.

Os indicadores antecedentes e coincidentes associados à produção industrial e à demanda mostram que o PIB tende a se manter em forte ritmo de crescimento no quarto trimestre. A manutenção dos estímulos de política econômica e a recuperação da confiança dos agentes tendem a manter o crescimento da demanda doméstica privada (soma do consumo das famílias e os investimentos privados) em forte ritmo de expansão. Este quadro tem se refletido na progressiva elevação das expectativas de crescimento do PIB em 2009 e 2010, que se encontra em 0,2% e 5%, respectivamente.

Em resumo, das contas nacionais depreende-se que o impacto da crise sobre a economia brasileira se restringiu ao quarto trimestre do ano passado e ao primeiro trimestre deste ano, além de que o processo de recuperação tem mostrado forte ritmo de expansão desde o segundo trimestre. Parte importante desta recuperação tem sido sustentada pela resiliência do consumo das famílias. Sob a ótica da produção, a trajetória de recuperação tem sido determinada desde o segundo trimestre pela indústria, apesar de o nível de atividade ainda não ter retornado aos valores registrados no terceiro trimestre do ano passado. Desta forma, apesar de ainda se observar capacidade ociosa em alguns setores produtivos, a demanda parece estar se expandindo em ritmo claramente acima do potencial de crescimento da economia. Sendo assim, talvez seja prudente iniciar o quanto antes um processo de retirada de estímulos para que a economia preserve uma trajetória de crescimento balanceada ao longo dos próximos anos.




Eduardo Marques
Economista do Opportunity e Mestre em Economia pela EPGE-FGV

1"Mercado de Trabalho, Crédito e Condições Econômicas”, comentário do mês de setembro de 2009. Disponível em http://www.opportunity.com.br/documentos/PDF_Comentario/cm200909.pdf

Este relatório é um resumo de informações obtidas de diversas fontes de mercado, e coletadas até o dia 25 do mês anterior à sua publicação. Apesar de todo o cuidado na coleta e manuseio destas informações, o Opportunity não se responsabiliza pela publicação acidental de informações incorretas. Todas as opiniões e estimativas foram elaboradas dentro do contexto e conjuntura no momento em que o relatório foi editado, podendo mudar sem aviso prévio. O propósito único deste relatório é o de divulgar informações e não deve ser considerado como uma recomendação de investimento. - Este documento não pode ser reproduzido ou publicado sem a autorização expressa do Opportunity.