Na segunda semana deste mês serão divulgados os números relativos ao desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre do ano. Em entrevistas recentes, o Ministro da Fazenda afirmou que o PIB brasileiro deverá ter registrado no período expansão entre 8% e 10% em relação ao segundo trimestre do ano, em termos anualizados, levando-se em conta a série com ajuste sazonal. À luz do Sistema de Contas Nacionais, nosso objetivo neste comentário é fazer uma síntese da evolução da economia brasileira ao longo de 2009 e suas perspectivas para os próximos trimestres.
O conjunto de indicadores derivados do Sistema de Contas Nacionais nos permite fazer uma avaliação global do desempenho da economia. Um dos principais agregados do sistema, o PIB (Produto Interno Bruto), mede o total de bens e serviços produzidos nas atividades de agropecuária, indústria e serviços, mais impostos líquidos de subsídios, em determinado período de tempo. Este fluxo de produção está associado a um fluxo de renda pela remuneração dos fatores de produção (capital e trabalho), que é gasto em consumo de bens e serviços, nacionais ou importados, e em investimento para a manutenção ou ampliação da capacidade produtiva. Portanto, das Contas Nacionais derivam-se três medidas do PIB por óticas distintas, mas com resultados equivalentes. O PIB medido pela ótica da produção, correspondente ao somatório do valor agregado de cada unidade produtora; pela ótica da renda, correspondente ao rendimento dos fatores de produção; e pela ótica da demanda, relativa ao total consumido e investido em bens e serviços. Em nossa análise, vamos nos focar na avaliação do PIB pelas óticas da produção e da demanda.
Depois da expressiva queda do PIB de 3,4% no quarto trimestre de 2008, contra o trimestre imediatamente anterior, a economia brasileira manteve a trajetória de queda no primeiro trimestre, com a retração de 1%, na mesma base de comparação. Sob a ótica da produção, a maior redução foi na indústria (-3,3% vs. -8,1% no quarto trimestre de 2008), seguida pela agropecuária (-1,4% vs. -2,0%), tendo os serviços apresentado elevação (0,6% vs. -0,5%). Sob a ótica da demanda, o destaque negativo ficou por conta dos investimentos, que registraram a maior queda da série nessa base de comparação (-12,3% vs. -9,1%), em reflexo da deterioração da confiança dos empresários. Destaque positivo para o consumo das famílias que, depois da queda de 1,4% no trimestre anterior, registrou expansão de 0,6% no período. O consumo do governo cresceu 0,6%. Dentre os componentes da demanda externa, tanto as exportações quanto as importações apresentaram queda (15,8% e 16,0%, respectivamente). O fraco desempenho da economia no primeiro trimestre se refletiu nas expectativas dos analistas para o crescimento da economia em 2009 e 2010, que no momento da divulgação do PIB situavam-se em -0,6% e 3,5%. Como mencionado em nosso comentário de setembro de 2009, neste período houve uma expressiva e rápida resposta de política econômica, que contribuiu de forma importante para o processo de recuperação da atividade1.
Com isto, observamos no segundo trimestre uma expressiva recuperação da economia, com expansão de 1,9% em comparação com o trimestre anterior, a despeito de ainda mostrar queda em relação ao mesmo período do ano anterior (-1,2%). No período, a recuperação foi determinada pela expansão da indústria (2,1%) e dos serviços (1,2%), com a agropecuária registrando queda de 0,1%. Sob a ótica da demanda, os estímulos da política econômica se refletiram na aceleração do crescimento do consumo das famílias (2,1%). Um sinal favorável foi a interrupção da queda dos investimentos, que registraram variação nula no período. O consumo do Governo registrou variação negativa de 0,1%. Com relação à demanda externa, destaque para a forte expansão das exportações (14,1%), tendo as importações também apresentado crescimento (1,5%). Este período foi marcado pelo início do processo de recuperação do nível da atividade econômica, resultado que levou as expectativas para o PIB de 2009 e 2010 para -0,2% e 4%, respectivamente.
Na divulgação do PIB do terceiro trimestre de cada ano, o IBGE realiza uma revisão mais abrangente que incorpora as novas ponderações das contas nacionais anuais de dois anos antes, além de atualizações nas séries de dados e eventuais aperfeiçoamentos metodológicos. Os resultados do ano anterior e dos dois primeiros trimestres do ano corrente são recalculados incorporando as mudanças nos pesos. Este procedimento traz incertezas às projeções para o resultado do PIB no trimestre, mas a evolução dos indicadores de atividade no período mostrou que o impulso observado no segundo trimestre foi mantido. Confirmada a projeção feita pela Fazenda, o PIB terá registrado expansão em torno de 2,2% no terceiro trimestre contra o trimestre imediatamente anterior.
Em nossa avaliação, sob a ótica da produção, os destaques no terceiro trimestre continuaram a ser os setores da indústria e dos serviços. O crescimento da indústria deve ser explicado, principalmente, pelo desempenho da indústria de transformação. As pesquisas mensais realizadas pelo IBGE mostraram que o setor manteve o forte desempenho registrado no segundo trimestre, mas de forma mais disseminada entre os setores. Destaque no período para a forte recuperação da produção de bens de capital que, associado ao melhor desempenho da produção de insumos para a construção civil, deve contribuir para a retomada do crescimento dos investimentos. Por sua vez, os investimentos devem ser o destaque entre os componentes da demanda no trimestre. A consolidação da recuperação do mercado de trabalho e de crédito tende a sustentar a expansão do consumo das famílias. Quanto à demanda externa, deveremos observar a reversão da contribuição positiva do setor externo, resultante da queda das exportações e crescimento das importações.
Os indicadores antecedentes e coincidentes associados à produção industrial e à demanda mostram que o PIB tende a se manter em forte ritmo de crescimento no quarto trimestre. A manutenção dos estímulos de política econômica e a recuperação da confiança dos agentes tendem a manter o crescimento da demanda doméstica privada (soma do consumo das famílias e os investimentos privados) em forte ritmo de expansão. Este quadro tem se refletido na progressiva elevação das expectativas de crescimento do PIB em 2009 e 2010, que se encontra em 0,2% e 5%, respectivamente.
Em resumo, das contas nacionais depreende-se que o impacto da crise sobre a economia brasileira se restringiu ao quarto trimestre do ano passado e ao primeiro trimestre deste ano, além de que o processo de recuperação tem mostrado forte ritmo de expansão desde o segundo trimestre. Parte importante desta recuperação tem sido sustentada pela resiliência do consumo das famílias. Sob a ótica da produção, a trajetória de recuperação tem sido determinada desde o segundo trimestre pela indústria, apesar de o nível de atividade ainda não ter retornado aos valores registrados no terceiro trimestre do ano passado. Desta forma, apesar de ainda se observar capacidade ociosa em alguns setores produtivos, a demanda parece estar se expandindo em ritmo claramente acima do potencial de crescimento da economia. Sendo assim, talvez seja prudente iniciar o quanto antes um processo de retirada de estímulos para que a economia preserve uma trajetória de crescimento balanceada ao longo dos próximos anos.