• Fev | 2016
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    O que está acontecendo com o comércio mundial?

    A literatura econômica é permeada por diversas controvérsias. Contudo, ao menos em alguns pontos existe certo consenso. Um deles é o de que o comércio internacional promove crescimento econômico e aumento do bem-estar¹. Já em 1817, David Ricardo demonstrou que países podem se beneficiar mutuamente do livre comércio, ainda que um desses países seja menos eficiente do que os outros na produção de todos os bens. Os ganhos advindos do comércio internacional ocorrem de diversas formas, entre elas, pela transferência de tecnologia e conhecimento, pela especialização de acordo com as vantagens comparativas e por todos os incentivos gerados pela maior concorrência, promovendo uma melhor alocação de recursos, inovação e, por fim, crescimento econômico. A hipótese de que o comércio internacional traz ganhos econômicos para as sociedades foi testada ao longo de todos esses anos e sobrevive até hoje.

    A motivação para esse Comentário é o fato de a velocidade de crescimento do comércio mundial ter se reduzido substancialmente, com impactos sobre o potencial de crescimento da economia mundial. Especificamente, a relação entre comércio e crescimento mundial se deteriorou bastante nos últimos anos.

    Durante os anos 70 e 80, cada 1% de crescimento mundial estava associado a aproximadamente 1% de crescimento do volume de comércio internacional. No jargão, a elasticidade do comércio ao crescimento era 1. Nos anos 90, essa elasticidade passou para 2, ou seja, o comércio internacional crescia numa velocidade duas vezes maior que a do PIB mundial. De fato, testes formais confirmam a existência de significativas quebras estruturais na relação comércio-PIB com relação aos anos anteriores e subsequentes. Segundo a literatura, esse movimento pode ser explicado por diversos fenômenos, dentre eles, a drástica redução dos custos e do tempo de transporte, além da evolução da tecnologia da informação e das comunicações a nível global, que permitiram a expansão das cadeias produtivas mundiais, com maior fragmentação do processo produtivo. Dessa forma, cada vez mais o processo de produção envolvia um número maior de estágios intermediários em diferentes países. Em boa medida esses processos intermediários foram executados nas economias emergentes, cuja razão entre comércio e PIB cresceu dramaticamente, especialmente nos países do leste asiático.

    A partir dos anos 2000, contudo, a elasticidade do comércio ao PIB mundial começa a diminuir. Especificamente, no período entre 2001 e 2007 a elasticidade passou para 1,5. Vale notar que isso ocorreu a despeito da forte integração da China no comércio mundial a partir de 2001, com sua entrada na OMC. Por fim, a partir de 2008 cada 1% de crescimento do PIB esteve associado a apenas 0,9% de crescimento do comércio mundial.

    A redução do ímpeto do comércio mundial gerou interesse em entender se esse era um movimento apenas temporário ou algo mais permanente. Em outras palavras, a redução da elasticidade do comércio ao PIB se deve a fatores cíclicos ou estruturais? Segundo a literatura, existe um pouco de cada.

    Dentre as razões “cíclicas”, aquela com maior apelo é o processo de mudança de composição na demanda mundial, com uma redução da participação do investimento. Isso ocorre, pois o investimento é o componente da demanda com maior conteúdo de bens transacionáveis internacionalmente. A partir da crise de 2008, houve um colapso do investimento, que fez com que as importações dos países mais afetados se contraíssem. O principal exemplo é a Europa, que é o maior bloco comercial, representando aproximadamente 1/3 do comércio mundial, e onde o investimento saiu de um crescimento médio de 5% entre 2001 e 2007, para apenas 2% a partir de 2008. Ainda que o PIB mundial volte a acelerar, especialmente nas economias centrais, dado os altos níveis de capacidade ociosa, é possível que o investimento ainda demore a reagir de maneira mais forte e, por consequência, também as importações. Outra razão usualmente apontada, embora com menor importância, para o arrefecimento do comércio é o aumento das barreiras protecionistas, especialmente as não-tarifárias (por exemplo, barreiras técnicas – sanitárias e fitossanitárias – e de conteúdo local). Na medida em que a economia global se recupere, a tendência é que essas barreiras sejam relaxadas.

    No campo das causas “estruturais”, a principal delas é o paulatino esgotamento do processo de expansão das cadeias produtivas globais visto ao longo da década de 90 e início dos anos 2000. Mais uma vez, a China é o exemplo clássico desse processo. Segundo a OCDE, em 1995 apenas 33% do valor agregado das exportações chinesas advinham de produtos importados nas diversas etapas da produção. Em 2005 esse valor saltou para 37%, evidenciando o avanço na fragmentação dos processos produtivos. Porém, em 2011 (último dado disponível) esse número recuou para 32%. Outra maneira de observar essa exaustão do avanço das cadeias produtivas está no fato de que a participação da importação de partes e componentes no total exportado pela China saiu de 55% nos anos 90 e primeira metade de 2000, para 35% hoje.

    Isto dito, mesmo que haja alguma aceleração no crescimento global, aliviando algumas das questões cíclicas apontadas, parece pouco provável que retornemos rapidamente aos anos 90, onde a elasticidade do comércio ao PIB era 2. A menor expansão do comércio tende a reduzir os potenciais ganhos de produtividade que comentamos no início deste texto, com impactos indesejáveis sobre o crescimento potencial dos países.

    Vale destacar que vimos no Brasil processo idêntico, com aumento da elasticidade do comércio a partir de 1990, alguma redução no início dos anos 2000 e uma queda adicional no pós-crise. Em 1995 apenas 8% do valor das exportações brasileiras eram agregados em outros países. Esse percentual chegou a modestos 12% em 2005 e em 2011 foi de 11%. Ainda somos um dos países mais fechados do mundo. Portanto, a nota positiva é que ainda temos um longo caminho a percorrer em termos de abertura comercial e integração nas cadeias produtivas globais. Não faz sentido continuar não aproveitando os potenciais ganhos derivados de uma maior integração com o mundo.

    Daniel Machry Brum
    Analista do Opportunity e Mestre em Economia pela PUC-Rio.