• 5 FEV 14

    Na dianteira

    Gestores dos 41 multimercados e fundos ativos de ações que obtiveram retorno de dois dígitos no ano passado renovam aposta em ativos externos, no dólar e em posições vendidas na bolsa.

    Por Por Luciana Seabra, de São Paulo

    O gestor é brasileiro, mas o retorno é importado. Os administradores dos fundos multimercados e de ações de gestão ativa de melhor desempenho em 2013 têm renovado as apostas em ativos estrangeiros, uma das estratégias que gerou mais ganhos no último ano. A bolsa americana e o dólar continuam a ter espaço privilegiado nos portfólios, ainda que em geral os gestores esperem ganhos mais modestos do que no ano passado. Para a bolsa brasileira, parte deles acredita no surgimento de janelas de oportunidades, mas o mandato de vender ações e apostar na baixa continua a ser visto como arma valiosa.

    No ano passado, 41 dentre 425 fundos multimercados e de ações não indexados com mais de cem cotistas entregaram dois dígitos de retorno, segundo estudo do consultor financeiro Marcelo d'Agosto, com base na Economatica. O ano de 2014, contudo, começou desafiador para esse grupo destacado de fundos: apenas 16 deles bateram em janeiro o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). Em 2013, 97 dos 425 fundos superaram o referencial para aplicações conservadoras.

    Os três fundos mais rentáveis em 2013, com ganhos de 53%, 47% e 43%, aplicaram em ativos ligados ao exterior - o primeiro comprou o índice S&P, o segundo aplicou em recibos de ações de companhias estrangeiras negociados no Brasil, os BDRs, e a terceira acessou diretamente as bolsas estrangeiras para compor uma seleção de papéis.

    Os três fundos no pódio de 2013 ganharam com a alta de bolsas estrangeiras - o S&P subiu 30% - e também com a alta do dólar, de 15%. "Ainda achamos que o cliente deve ter proteção cambial e que a bolsa americana está em um preço atraente", diz Marcio Appel, diretor da gestora do Safra, dona do fundo mais rentável em 2013 segundo o levantamento. A carteira foi criada no fim de 2012 diante do otimismo com a bolsa americana. "Não sei se o S&P vai chegar aos 30% do ano passado, mas certamente vai dar mais do que a bolsa brasileira", afirma o executivo.

    Para Appel, a economia dos EUA está saudável e ainda tem motores de crescimento, como a possibilidade de reduzir o desemprego sem que isso tenha impacto inflacionário. "Já a Europa ainda acho que terá desafios lá na frente."

    Os países desenvolvidos estão na fase ascendente do ciclo, considera também Joaquim Levy, diretor-superintendente da Bradesco Asset Management (Bram). "Já o mercado brasileiro, como todos os emergentes, está em um movimento de refluxo da liquidez", diz. Por isso, ele espera desempenho satisfatório do fundo de BDRs da casa, ainda com posições representativas nos setores que mais contribuíram com o desempenho no ano passado - bancos, que se beneficiam da expansão do crédito, e companhias de tecnologia, que ganham com a busca das empresas por produtividade.

    Há ainda a possibilidade de ganhar com o dólar novamente, considera Levy. A moeda americana respondeu por metade do retorno da carteira de BDRs em 2013.

    Estão alocados na América do Norte 57% do patrimônio do fundo CSHG Global Equities, da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), que entregou 43% no ano passado. A Europa fica com outros 28%, enquanto a Ásia e o México têm 15%. Dentre os papéis que contribuíram estão Disney, Google e a rede de farmácias CVS. Uma empresa recém-chegada ao portfólio é Coca-Cola Enterprises, uma das engarrafadoras da bebida.

    Assim como em 2013, o fundo da CSHG mantém-se fora da bolsa brasileira. "Continuamos achando melhores ações para comprar fora. O Brasil tem excelentes empresas, mas acho o 'valuation' de forma relativa não tão barato", diz Artur Wichmann, gestor de fundos internacionais da CSHG, em referência aos preços dos papéis.

    Foi na zona do euro que o BTG obteve a maior parte do retorno de seu fundo global de destaque no ano passado, por meio de crédito privado. A região que mais contribuiu foi a europeia, com a redução das taxas de juros resultante da promessa do Banco Central de fazer tudo que fosse necessário para salvar a zona do euro.

    João Scandiuzzi, estrategista-chefe da gestora do BTG Pactual, começou o ano com a expectativa de alta nas curvas de juros americanas, que refletem a expectativa para a taxa, com impacto sobre outros países. "Podemos fazer exposições inclusive vendidas em crédito", diz. O estrategista espera que surjam oportunidades até mesmo em mercados emergentes, que têm apanhado recentemente. "Em alguns casos e momentos, o movimento deve extrapolar os fundamentos", afirma.

    Os multimercados da ARX Investimentos e da BB DTVM, também entre os destaques de 2013, tiveram a alta do dólar como importante fonte de retornos. O multimercado mais agressivo da gestora independente montou uma posição em dólar contra o real em fevereiro do ano passado, carregando desde então com breves interrupções.

    A ARX mantém neste ano as apostas na alta do dólar, assim como no avanço dos juros brasileiros, que garantiram ganhos expressivos no ano passado. Os fundamentos do país pioraram desde o ano passado, considera José Alberto Tovar, no comando da ARX. E há ainda a materialização da retirada de estímulos nos EUA. "Pegamos carona nessa minicrise dos emergentes. Não somos os piores, mas um dos que mais recebeu dinheiro. Então tem muito para sair", afirma Tovar. "O Brasil aproveitou o tempo de bonança. Agora vem o ajuste", completa.

    Foi a alta do dólar que mais garantiu ganhos nos últimos dois anos para o multimercado de destaque da BB DTVM. "No cenário de câmbio, imagino um movimento menos intenso em 2013, mas parecido", diz Marcelo Pacheco, gerente-executivo de fundos multimercados e offshore da gestora do Banco do Brasil.

    Para este ano, Pacheco espera desempenho positivo do mercado externo, mas também está atento às ações brasileiras. "Como a bolsa já está em nível bastante descontado, imaginamos que até haja espaço para uma queda adicional, mas podemos ter oportunidades de entrada ao longo do ano", afirma.