• 12 FEV 14

    Crise argentina pode tirar 0,2 ponto do PIB brasileiro em 2014

    Relações externas | Indústria tende a ser mais afetada, já que manufaturados são 76% das vendas para o vizinho

    Por Tainara Machado | São Paulo

    A indústria, que avançou apenas 0,3% no último semestre do ano passado, na comparação com igual período de 2012, tende a ser a principal afetada pela crise argentina, que se agravou desde a desvalorização de mais de 20% do peso no mês passado. Como boa parte das exportações do Brasil para o país é de produtos manufaturados, a provável redução das importações argentinas pode tirar algo como 0,2 ponto percentual do crescimento brasileiro em 2014, de acordo com economistas consultados pelo Valor.

    Em função de cenário econômico adverso enfrentado pelo país vizinho e os potenciais efeitos sobre a indústria brasileira, a Nomura Securities revisou de 1,7% para 1,5% a projeção de crescimento da economia brasileira neste ano. Para Tony Volpon, diretor-executivo e chefe de pesquisas para mercados emergentes das Américas da Nomura, essa revisão foi conservadora, já que ainda há pouca clareza em torno dos desdobramentos que o início de ano turbulento na Argentina terá ao longo de 2014.

    Volpon avalia que como a indústria brasileira é bastante dependente da Argentina, a crise não traz apenas um choque negativo para as exportações, mas também para o setor industrial, que tem uma cadeia de produção mais longa, e para os investimentos. Do total de exportações para o vizinho em 2013, 76% foram de produtos manufaturados, índice que ficava em torno de 70% em meados da década passada.

    De acordo com modelos econométricos usados pelo Nomura, variações de um ponto percentual na produção industrial argentina estão associados a mudanças de 0,6 ponto percentual na indústria brasileira. Assim, caso a indústria argentina, que nos três meses encerrados em novembro cresceu cerca de 3% sobre igual período do ano passado, fique estagnada nos três meses seguintes, a indústria brasileira, que cresceu a uma taxa de 1,1% no mesmo período, pode ser até 0,72% menor ao fim de 2014, o que reduziria o PIB doméstico em 0,2 ponto, para 1,5%.

    Na avaliação de Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, a Argentina vem reduzindo as compras de produtos brasileiros desde a segunda metade do ano passado, quando o crescimento do país teve desaceleração forte. Na média, estima a LCA, o país cresceu 5% no ano passado, mas esse avanço foi bastante concentrado nos primeiros seis meses do ano. Na segunda metade de 2013, a economia argentina deve ter encolhido a uma taxa anualizada de 4%, o que levou a uma queda de 5% das exportações brasileiras para lá na comparação com o primeiro semestre, de acordo com a série dessazonalizada pela LCA. Entre janeiro e junho de 2013, com o impulso das exportações de veículos, a alta havia sido de 19%, na comparação com o segundo semestre de 2012, sempre de acordo com a série com ajuste da consultoria.

    Assim, diz Borges, os números da balança de janeiro deste ano refletem a continuidade desse processo, agravado pela desvalorização cambial e pelas restrições a importações, como o objetivo anunciado pelo governo de reduzir as compras de automóveis de maior valor agregado em até 27,5% neste ano. Em janeiro, as vendas do Brasil para a Argentina caíram 13,7%, na comparação com o mesmo período do ano passado. A retração foi puxada principalmente pelo setor automotivo.

    As vendas de veículos para a Argentina caíram 14,7% em janeiro, enquanto as exportações de partes e acessórios foi 26% menor, na mesma comparação. Em 2014, estima a LCA, a Argentina não deve crescer e as vendas do Brasil para a país vão recuar 15%, o que, isoladamente, poderia "roubar" até 0,3 ponto percentual do PIB brasileiro em 2014.

    A LCA, no entanto, revisou sua estimativa em 0,1 ponto percentual, de 2,4% para 2,3%, porque outros fatores vão parcialmente compensar esse efeito. Os Estados Unidos e a Europa, por exemplo, têm mostrado dados de atividade um pouco mais fortes e podem impulsionar o setor externo, enquanto as perspectivas para a safra agrícola deste ano estão melhorando, diz Borges. O setor industrial, no entanto, tende a ser mais afetado e a expectativa de crescimento da indústria de transformação passou de 2% para 1,3% em 2014.

    Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Capital Asset, calcula que a crise argentina pode tirar algo como 0,25 ponto percentual do crescimento brasileiro em 2014 e por isso revisou sua projeção de avanço do PIB doméstico para este ano de 2% para 1,75%. Para Velho, ao longo dos próximos meses, a desvalorização da moeda argentina, em relação ao real e em termos reais (ou seja, levando em conta estimativa de inflação de 6% no Brasil e de 40% na Argentina) deve ser de 11%. A redução da renda por causa dos ajustes contracionistas em curso, como a alta de juros, também é um fator a diminuir a demanda por produtos nacionais.

    A situação pode se agravar no curto prazo por causa dos relatos de que restrições têm sido impostas à compra de dólares, especialmente por importadores. Diante desse contexto, diz o economista, as exportações do Brasil para o país vizinho devem cair de US$ 19,6 bilhões em 2013 para US$ 17,4 bilhões em 2014. O saldo na balança comercial brasileira, no cenário de referência, com queda de 0,75% do PIB argentino em 2014, foi reduzido de US$ 9 bilhões para US$ 6,8 bilhões.

    Para cada 10% de queda das exportações para a Argentina, o crescimento do PIB brasileiro pode diminuir em 0,2 ponto percentual em 2014, estima Aurélio Bicalho, economista do Itaú. Em sua avaliação, a queda das exportações já observada em janeiro pode se acentuar ao longo do ano. "A importação reage muito rapidamente a mudanças na taxa de câmbio, mas o efeito mais intenso tende a ser visto nos próximos meses." O cenário para a atividade industrial no Brasil, avalia, é de fraqueza. A retração de 3,5% da atividade nas fábricas em dezembro, o aumento dos juros e a confiança em patamar baixo já eram riscos para o cenário atual e a piora na Argentina traz uma fonte adicional de incerteza.

    Para Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity, de modo geral, a deterioração do quadro na Argentina não ajuda a indústria brasileira, mas possivelmente não é um efeito de primeira ordem, já que a economia brasileira é fechada e o comércio internacional diversificado. Para Bassoli, são alguns setores específicos, como o automobilístico, que vão sofrer mais do que a média, porque concentram boa parte das vendas externas para a Argentina. Mesmo assim, Bassoli avalia que a economia vai desacelerar em 2014, com crescimento de 1,6%, devido ao cenário de aumento de incertezas e à estagnação da produtividade, que pioram o ambiente para os investimentos. (Colaborou Arícia Martins, de São Paulo)