• 16 JUN 13

    Sinais dúbios do Fed põem mercado na "escuridão"

    Por Fábio Alves

    SÃO PAULO - Investidores e analistas começam esta semana no escuro para lidar com o maior risco aos preços das ações em bolsas, às cotações de moedas e às taxas de juros ao redor do globo: a mensagem a ser dada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) quanto à redução ou não dos estímulos monetários injetados na economia americana. E a culpa disso é a comunicação confusa do banco central americano, dizem analistas.

    O Fed realiza na terça-feira e quarta-feira a reunião do seu Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) e o espaço para surpresas com impacto significativo nos mercados globais é grande. Isso porque só nas duas primeiras semanas deste mês seis presidentes regionais do Fed, dos quais dois membros votantes na reunião do Fomc, fizeram pronunciamentos públicos sobre o programa de compras de ativos, pelo qual a autoridade monetária injeta US$ 85 bilhões por mês no mercado americano.

    Esse número atípico de pronunciamentos dedicados a um mesmo tema em tão curto espaço de tempo vem recebendo críticas: em vez de calibrar as expectativas, elevou o grau de ansiedade dos investidores. Mesmo sem haver nenhuma expectativa de um anúncio formal sobre a redução do ritmo de compras de ativos, os mercados poderão reagir com violência a qualquer palavra que possa indicar essa possibilidade.

    E para aumentar ainda mais o risco de surpresa, a reunião desta semana é uma das quatro, entre as oito reuniões anuais do Fomc, em que a decisão de política monetária é seguida de uma entrevista à imprensa pelo presidente do Fed, Ben Bernanke. Ou seja, o Fed não terá o benefício de apenas divulgar um comunicado vago Pelo contrário: Bernanke não terá como evitar questionamentos sobre se haverá ou não redução da compra de ativos.

    "O maior risco para os investidores é Bernanke preparar os mercados nesta reunião para uma saída dos estímulos", diz o superintendente de Tesouraria do Banco Indusval & Partners, Daniel Moreli Rocha. "As bolsas de valores cairiam, inclusive no Brasil, e o dólar se valorizaria fortemente no mundo se houver na reunião do Fomc uma sinalização de como e quando o Fed poderá fazer a saída dos estímulos ou redução das compras de ativos."


    Risco
    Para Rocha, uma comunicação malfeita pelo Fed poderá trazer uma volatilidade desnecessária aos mercados financeiros, como tem se observado nas últimas semanas. "A saída dos estímulos monetários nos Estados Unidos será o assunto mais importante para os investidores nos próximos meses e o Fed precisa agora ter uma melhor coordenação nos discursos dos seus diretores para suavizar o impacto de quando chegar o momento de anunciar o fim desses estímulos."

    Discursos
    No dia 3, por exemplo, os presidentes do Fed de Atlanta e de San Francisco, Dennis Lockhart e John Williams, respectivamente, fizeram discursos contra a manutenção do ritmo atual de compras de ativos. Os dois não são membros votantes do Fomc este ano, o que, de certa forma, diminui o peso de suas palavras aos olhos dos investidores.

    No dia 4, a presidente do Fed de Kansas City, Esther George, deu declarações também contra a manutenção dos estímulos. Ela, contudo, tem poder de voto no Fomc. No dia 5, Richard Fisher, presidente do Fed de Dallas, membro não votante, também se disse contra a manutenção dos estímulos no ritmo atual.

    No dia 6, Charles Plosser, presidente do Fed de Filadélfia, outro membro não votante, pediu a redução no programa de compras de ativos. E, no dia 10, James Bullard, presidente do Fed de St. Louis, destoou de seus companheiros e fez uma defesa desse programa, argumentando que "leituras fracas sobre a inflação dos EUA significam que o Fed terá de seguir adiante com as compras de bônus por mais tempo que o esperado". E Bullard vota na reunião do Fomc.
    "Creio que a comunicação à frente, inclusive na reunião desta semana, deveria enfatizar que entre o início do processo de redução do ritmo de compra de ativos e o início de elevação das taxas de juros, o intervalo de tempo pode ser bastante longo", diz Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity. "O cenário mais provável hoje é de que o anúncio de redução do ritmo de compra de ativos aconteça antes do fim deste ano, provavelmente em dezembro."

    Entre os analistas estrangeiros, os economistas da corretora japonesa Nomura Securities acreditam que um anúncio de redução no volume de compras de ativos aconteça provavelmente na reunião de 17 e 18 de setembro. Para Michael Feroli, economista do banco JPMorgan, Bernanke deve evitar especular quando reduzirá os estímulos, enfatizando que a decisão vai depender dos indicadores econômicos.

    Já os economistas do Deutsche Bank, em nota a clientes, disseram não esperar que Bernanke "mostre confiança de que a redução do QE (sigla em inglês para afrouxamento quantitativo) esteja próximo". Contudo, segundo o Deutsche Bank, a questão-chave para os mercados mundiais é se Bernanke, durante a entrevista, dará sinais de que essa redução é plausível no segundo semestre. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.