• 29 NOV 13

    Economistas projetam recuo de 0,3% no PIB

    Por Arícia Martins e Tainara Machado | De São Paulo

    Uma conjunção de fatores negativos na virada do semestre provocou uma tempestade "quase perfeita", ainda que de pequenas proporções, que interrompeu a trajetória de recuperação gradual da economia brasileira no período de julho a setembro, segundo economistas. Para eles, a forte crise de confiança que se abateu sobre empresários e consumidores paralisou investimentos e afetou negativamente a indústria, levando o Produto Interno Bruto (PIB) a recuar na passagem do segundo para o terceiro trimestre.

    De acordo com a média de 18 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, o PIB brasileiro caiu 0,3% no terceiro trimestre, na comparação com o segundo, feitos os ajustes sazonais. O número representa forte desaceleração em relação à alta de 1,5% observada entre abril e junho. As estimativas para o desempenho da atividade econômica no período vão de retração de 0,5% até estabilidade. O IBGE divulga as Contas Nacionais Trimestrais na terça-feira.

    No fim de maio, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) sinalizou que poderia começar a reduzir os estímulos monetários à economia americana ainda neste ano, o que não se concretizou por enquanto. Ainda assim, causou forte desvalorização do real em relação ao dólar e conturbou os mercados financeiros em países emergentes. A isso se somaram as manifestações de rua que dominaram o país em junho.

    Em conjunto, essas turbulências provocaram uma queda brusca da confiança. Do lado da oferta, o setor mais afetado foi a indústria, que acumulou estoques e demorou mais a se recuperar do que outros segmentos da economia. Já sob a ótica da demanda, o aumento do pessimismo abalou principalmente a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil). Depois de crescer 6% no primeiro semestre, esse componente do PIB deve ter encolhido 1,7% nos três meses terminados em setembro, segundo a média de oito economistas.

    "A virada do semestre foi um período de muitas incertezas, que tiveram uma repercussão negativa sobre a atividade em geral e principalmente sobre os investimentos", diz Alexandre Bassoli, economista-chefe do Opportunity, que projeta contração de 0,3% do PIB na passagem trimestral. Do lado da oferta, Bassoli aponta que a principal influência negativa para a economia deve vir do PIB industrial, com queda de 0,8% em seus cálculos.

    Para Bassoli, a normalização da produção de veículos pesados após o forte impulso observado até junho puxou a indústria para baixo no terceiro trimestre, assim como a alta no volume de estoques indesejados em diversos ramos do setor manufatureiro, com destaque para o automobilístico. Em sua avaliação, a maior quantidade de mercadorias paradas deve seguir como fator de moderação à atividade industrial nos últimos meses do ano, o que sinaliza uma recuperação pouco expressiva do PIB no período.


    Embora tenha peso bem menor nas contas nacionais do que a indústria, o setor agropecuário também terá impacto negativo relevante no PIB do terceiro trimestre, segundo a MCM Consultores. A consultoria estima que este componente da atividade vai encolher 4,3% ante o segundo trimestre. "Ainda que a cana-de-açúcar tenha impacto positivo no terceiro trimestre, predominará o fim dos efeitos da supersafra de soja no primeiro semestre", afirmou, em estudo, a equipe econômica da MCM.

    Pelo lado da demanda, a ausência do impulso dado pelo setor industrial e pela aquisição de máquinas para o agronegócio no primeiro semestre se refletiu na formação de capital físico, principal motor do crescimento no primeiro semestre que perdeu força entre julho e setembro. Para Fernanda Guardado, economista do banco Brasil Plural, os empresários também estão reticentes em investir por causa do ambiente doméstico incerto.

    No terceiro trimestre, o Índice de Incerteza Econômica calculado pelo banco ficou em 0,70 ponto, acima da média histórica de 1997 a 2013, de zero ponto. Em outubro, o indicador continuava em patamar elevado, ao marcar 0,67 ponto, o que sugere continuidade da perda de vigor da FBCF, diz Fernanda. Ela projeta que entre o segundo e o terceiro trimestres, o investimento tenha desacelerado de uma alta de 9% para um avanço de 6%, sempre em relação a igual período do ano anterior. "Ainda é um ritmo robusto, mas já mostra que a tendência é de desaceleração."

    O Itaú também avalia que os fundamentos sugerem arrefecimento dos investimentos nos próximos trimestres, embora alguma reação tenda a ser observada após a retração de 1,2% esperada para a formação de capital fixo entre julho e setembro. "Depois de números bem positivos nos trimestres anteriores, não é surpresa que os investimentos recuem agora", diz o economista Aurélio Bicalho. O que prejudicou a formação de capital fixo neste período foi principalmente a importação de bens de capital, com queda de 4,7% no trimestre encerrado em setembro, já que a produção desses itens subiu 1,3% nos mesmos três meses.

    Segundo Bassoli, do Opportunity, incentivos do governo como o programa federal Minha Casa Melhor e a política fiscal expansionista ajudaram o consumo das famílias a mostrar um comportamento um pouco melhor no terceiro trimestre, com alta de 0,8%, mas foram insuficientes para evitar uma retração da atividade geral. "O consumo não foi mal, mas quando olhamos o ano como um todo, há um quadro menos favorável para a demanda, que reflete alguma perda de fôlego do mercado de trabalho e dos salários", disse.

    Para o setor externo, o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, considera que a contribuição deixará de ser positiva nos três meses terminados em setembro. Entre abril e junho, as exportações líquidas foram beneficiadas por uma base baixa de comparação e exportações fictícias de plataformas de petróleo, destacou. Como esses fatores não devem se repetir no terceiro trimestre e as importações seguiram em alta, observa Leal, a demanda externa pesará negativamente sobre o PIB do período.

    Esses eventos pontuais se somam a uma sequência extensa de eventos que prejudicaram o comportamento da economia no terceiro trimestre, diz o economista do ABC, que projeta retração de 0,2% do PIB na passagem trimestral. "Não chegamos a ter uma tempestade perfeita, mas foi uma sequência ruim de acontecimentos", afirma o economista, lembrando das manifestações de junho, da inflação elevada e do aperto das condições financeiras vivenciados pelo Brasil na virada do semestre.

    Sem esse choque que abalou a confiança de empresários e em algum grau dos consumidores, é possível que a economia mostrasse desaceleração mais linear, em vez do resultado negativo esperado para o terceiro trimestre. "A economia não sustentaria o ritmo do segundo trimestre [quando o PIB avançou 1,5% sobre o período anterior], mas o crescimento seria mais razoável". Como uma nova conjunção de fatores negativos não deve se repetir nos três meses finais do ano, Leal afasta a ideia de uma recessão técnica, quando a economia tem dois trimestres consecutivos de retração.

    No entanto, o desempenho da atividade no último trimestre do ano ganha relevância, apesar do efeito pequeno sobre a média de crescimento do ano, porque se a indústria e os investimentos não se recuperaram como esperado, a sinalização pode ser de reversão da tendência, sugerindo um ano de 2014 mais fraco do que o esperado. Por enquanto, Leal projeta crescimento de 0,5% no quarto trimestre e de 2,6% neste ano. Para 2014, a expectativa é que a economia avance 2%.